RESGATE DE SENTIR
O homem pede licença para entrar no mar sempre lentamente parecendo rezar poesia observando o horizonte que se junta às águas objetivando nadar até ele adentra feito parte da natureza assim como determina que adentrará na vida da mulher resgatando o que foi retido entre olhar e pensamento numa caixa de Pandora que num segundo desembocou do estômago subiu pelo coração mal dando para falar ao telefone arriscando um tiro no escuro porque ela está sozinha só pode ter sido a sábia energia dos deuses que prepararam o momento e porque agora cansaram de se dar e é chegada a vez de receber a vida que vem assim de surpresa porque ela sendo poeta é só emoção não resistirá ao abraço mais puro nem ao quarto de criança onde alcançarão o cosmos e não resistirá também ao seu desprendimento exagerado das coisas materiais apesar de ter gosto fino e conhecedor de um Maxim’s com escargot e um vinho que ela nunca tomou e nem pagaria por isso sendo paradoxalmente analisado perto de toda simbiose com folhas ao escalar pedras sumindo nas fendas pisando nas matas com pés descalços amanhecendo ao violão com letras distantes passando imagens e pessoas calmamente com um sorriso saudoso gritando de braços abertos gargalhando sozinho dançando Pink Floyd enquanto cozinha e tão coerente quando sabe o preço da casa de madeira que talvez tenha e acorde na praia comendo anchovas lembrando le bon vagabond que desbravava a madrugada por causa de uma aldeã francesa assumindo as culpas que não deve nem se defende não tendo medo de assentar tijolos e carregar areia do rio nem de catar berbigão e ser chamado de professor nem de usar papel de pão para agenda desenhando detalhes arquitetônicos em mesa de bar se contendo para não fazer projetos nem criar raízes por ter medo porque é libriano e sabe que sonha e se embarcar no sonho correrá o risco de novo embora sabendo que cada passo e cada amor só o fará mais belo e preparado mesmo porque se preparou para as mulheres e todas acrescentarão para ser mais amante mais menino mais completo porque conhece sua capacidade de se entregar e como é perigoso no entanto faz um jogo de dar e tirar brincando vez em quando para fazer charme diz como alguém pode gostar de mim sendo necessário não ter certeza de nada para ter inspiração de criar se imaginando sempre etéreo e livre ironizando um pouco revela suas verdades disfarçando sua beleza atrás dos óculos de sol contando casos às vezes indefinidos no tempo parecendo pequena a vida para tanta andança mas possível pela inquietude natural que o domina e ela percebe e percebe também que não são os lugares mas sim ele mesmo que terá de se encontrar no seu próprio espaço mas ela não fala porque um dia ele vai se dar o direito de querer ser feliz e se perdoar e ela tenta disfarçar também porque não quer falar sério e não adiantará pois ele já sabe tudo isso e ela sabe e quando reclama do sono das noites mexe com a vaidade dele para provar tesão porque também é de Libra cheia de artimanhas e tem medo é de se entregar sonhando demais querendo olhar sem óculos nos olhos da alma sendo ladra absorvendo suas histórias aquelas em que a mágoa transborda e ela fica perdida e tem vontade de agasalhá-lo no colo assumindo postura de mãe essa que entende tudo ou faz que entende calando tanto coisas passadas que ele sabe haver e ela esconde e no entanto mostrando tanto quando lhe morde o peito e beija louca querendo ser única tão pretensiosa como toda mulher que não admite passado e um só futuro quer em algum lugar não muito longe com bastante terra para plantar e uma casinha de madeira com varanda pintada de branco e flores de maracujá parecendo não pensar nas coisas práticas fazendo castelos e o envolvendo visguenta sem perguntar diretamente o que acontece e se pode continuar acreditando em tudo que ele diz para experimentá-la e provocar reações porque sabe que a acende e transforma intelectual e emocionalmente desde escrever compulsivamente até o ato leve do corpo tocando diferente e será diferente de qualquer outro em tudo não porque eles querem acreditar nisso como Dom Juan de Marco mas porque inegavelmente se vêm espelhos e sensíveis iguais ao extremo e a atração da pele passa a ser mais uma atração entre outras tão fortes ele diria cerebral por energia e apesar de caminhos tão adversos transpassados conseguem juntar as mãos sentindo o sentido do que não foi vivido sozinho há tanto tempo e agora flui explodindo dessa maneira não tendo mais vontade de se largarem e falando todos os dias mesmo longe estão perto e fissurados ao acordarem se lembram um do outro entrelaçando as pernas amando outra vez do jeito dele comprovando assim o quanto não dirigimos tanto os passos e nem o ritmo que planejamos e que será inútil lutar contra a corrente que arrasta e diante do que se tem que aprender ao mergulhar no inesperado que tenha se esperado depois de tanto se deixarem aos pedaços porque nada cobram de ninguém a não ser de si mesmos permanecendo conscientes do quanto se permitem ferir e como é fácil serem por se mostrarem tão transparentes e ainda assim concordarem que o amor é regenerante e possível sendo doação e devolução em que nada se força ou se explica e em que se tem que ter muito prazer não podendo nada ser igual ou comparável e eterno é o que marcará porque os momentos são mágicos e delicados como tesouros e em cada ser habita uma inesgotável cachoeira de possibilidades insistindo na ideia do uno e no reconhecimento de partícula da mesma estrela sendo imperdoável se perderem entre cristais despedaçados e sem retorno mesmo existindo o respeito pelas coisas que já foram porque acumularam mais amor para amanhã ser maior e com certeza será por iluminados que são e estão e não inventaram isso nem o voo preciso das gaivotas em busca do alimento mas as asas sim e porque precisam viver a história inteira para serem quem sabe finalmente inteiros.