O ESQUISITO DO TERCEIRO ANDAR

Neide Ciarlariello

Neide Lopes Ciarlariello

Ele era um grande contraste, tímido e fechado em si mesmo, era um homem de meia idade que não gargalhava, econômico no sorriso, limitado nos abraços, econômico nos cumprimentos sempre a esboçar um ar de expectativa. Apesar do sorriso contido, eu sentia que ele trazia no peito a necessidade de expandir uma alegria que não conseguia transformar em   gestos e palavras.

As crianças não se acervam dele, quiçá por seu semblante fechado, ou por aquelas roupas estranhas e fora de moda com que ele cobria o corpo.  Retornava todos os dias às dezesseis horas e impreterivelmente saia pela manhã às seis, sempre com um cachecol envolto no pescoço quase a cobrir-lhe o queixo, fizesse frio ou calor. Ninguém sabia sua profissão de onde vinha, nem para onde ia. Não tinha   família, alguns raros amigos e nenhum amor. Vivia só.

A vizinhança o tinha como “aquele esquisito do terceiro andar”.

Mas essa figura estoica era um folião inveterado que se preparava com antecedência para a grande folia de Momo.  Já no mês de outubro/novembro começava a armazenar tecidos, fitas, plumas, lantejoulas, e pacotes de serpentinas, confetes e caixas de lança perfume.

Da minha janela eu avistava seu apartamento e o via abrindo tais pacotes, ficando horas pensativo admirando todos aqueles produtos como que imaginando o que faria com eles. Também nos finais de semana ele ficava debruçado numa antiga máquina de costura a lidar com os tecidos coloridos, alguns com muito brilho numa concentração que o impedia de constatar a minha intromissão.

Talvez não fosse correta essa minha invasão na casa alheia, mas era impossível resistir, pois sua janela nunca se fechava e aquela figura sempre ensimesmada, me   encafifava. 

Sobre a pequena mesa de madeira ele selecionava algumas plumas, também coloridas, e recortava delicados   losangos e os colocava na primeira prateleira da estante que mantinha ao lado de um espelho, onde refletia uma antiga eletrola e uma pilha de discos.

E nesse afã ele edificava sua fantasia e eu, da minha janela imaginava que ele deveria estar sonhando com o tríduo da alegria,  e tentava adivinhar quais seriam as musicas que ele estava ouvindo, numa associação com a tarefa que ele executava.

Com certeza na hora em que desamarrava o barbante e abria os embrulhos de toda parafernália carnavalesca adquirida, ele deveria cantarolar “Ô abre alas que eu quero passar….” ,  porque esse primeiro acorde da lendária marchinha de Chiquinha Gonzaga, é um pede passagem à folia e deve tê-lo feito sentir a fragrância   da lança perfume do carnaval de outrora.

Num jogo de cara e coroa eu tentava adivinhar qual seria sua fantasia. Um lindo pirata? Um cigano? Um pássaro estilizado? Não sei.

 Mas no dia seguinte, enquanto ele fixava os losangos coloridos na já concluída blusa de mangas bufantes, sua expressão era de êxtase e eu pude observar que seu rosto se iluminava a cada peça fixada. Ah…com certeza nesse momento ele assobiava “Um pierrô apaixonado que vivia só cantando…”   e ia planejando como remeter as serpentinas para laçar sua colombina e se enredar em seus braços,    numa aproximação permissiva  que as partes desejam e o carnaval  facilita.

O tempo foi passando e o “esquisito do terceiro andar” terminou sua linda fantasia e a colocou num cabide pendurado no lustre. Que lugar mais estranho de pendurar uma roupa, enfim… acredito que era para melhor visualizá-la, imaginando o momento de vesti-la e realizar seu sonho de alegria. Com certeza era isso mesmo que ele pensava porque a observava de todos os ângulos sempre em círculos, balançando a cabeça afirmativamente, como que inspecionando sua perfeição. O artista admirava sua obra!

A ansiedade me dominava. Mal podia esperar o sábado de carnaval para vê-lo envergar seu lindo pierrô e quiçá ver em seu rosto um largo sorriso, quando finalmente, ele pudesse se admirar no espelho fixado ao lado da estante. Da minha janela eu, eufórica, o aplaudiria efusivamente e passaria imediatamente para a outra janela que me dá visão da rua, por onde ele seguiria a passos largos cantarolando “mamãe eu quero…mamãe eu quero…mamãe eu quero mamar”.

Acordei no sábado de carnaval e corri para a janela. Lá estava a fantasia pendurada no lustre, mas não avistei meu vizinho. O dia custou a passar e eu aguardei o anoitecer para que   a luz do terceiro andar se ascendesse e assim eu pudesse acompanhar a metamorfose   do “esquisito do terceiro andar” num lindo pierrô apaixonado.

Eu queria ver a transformação daquele homem tímido e fechado, econômico no sorriso e que não gargalhava, num homem feliz, aberto à tudo o que vida poderia lhe proporcionar de alegria e aventura naquela noite de carnaval.

Esperei… esperei…, mas o terceiro andar permaneceu às escuras por toda a noite. No dia seguinte, a janela emoldurava a mesma sala, a mesma fantasia pendurada no mesmo lustre, e assim foi até a manhã da quarta-feira de cinzas, quando a janela do terceiro andar finalmente amanheceu aberta. Da outra minha janela, aquela que me   dá visão para a rua, vinha um grande burburinho de vozes e uma sirene tocava alto ininterruptamente; corri para lá e além da garoa fina que cobria aquela manhã avistei um esquife que era introduzida num carro funerário.

“quarta-feira de cinzas amanhece,

na cidade há um silêncio que até parece,

que o próprio mundo se despovoou …”

Neide Lopes Ciarlariello Sabichi