GIZ

Márcia Lupia

Márcia Lupia

            Sentia minhas pernas pesadas. Uma viagem de ônibus, na minha idade, mesmo que fosse de uma hora e meia, já não poderia ser enfrentada como antes. A paisagem começava a deixar para trás o verde que se vê na estrada, dando espaço às construções acinzentadas. Reclinei meu assento e peguei minha maleta que se encontrava no assoalho do veículo.

            Campinas havia mudado desde a época em que eu frequentava a universidade. Não era mais tão calma. Tinha cara de cidade grande. Saindo da estação de ônibus, peguei um táxi até a universidade. No caminho, o motorista puxou assunto sobre aquelas trivialidades que são costume neste tipo de interação: o tempo, o trânsito, o futebol. Há quem não goste desse tipo de diálogo. Eu, no entanto, sempre o considero útil para distração. Assim, envolvido pelo som de uma rádio de notícias e pela voz do taxista, cheguei ao meu destino.

Na porta do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, lugar que me era tão familiar, peguei a minha caderneta de anotações do bolso para verificar qual era a sala que o Prof. Geraldo havia reservado para a minha palestra. Aposentado há pelo menos cinco anos, raros são os convites que aceito para ministrar alguma aula ou para dar alguma palestra. Minha saúde já não é tão boa assim e, obviamente, preciso fazer uma triagem nessas solicitações. Geraldo sempre foi parceiro; conhecemo-nos desde a época em que morávamos e estudávamos juntos na Campinas de outrora. Seguimos a carreira docente, mas eu fui tentar a sorte no Rio de Janeiro e, posteriormente em São Paulo. Geraldo criou raízes naquela em que foi a universidade que me abriu as portas para um caminho pelo qual jamais pensei trilhar.

            Com a caderneta aberta, espremia os olhos para enxergar as anotações. Pura preguiça de pegar os óculos. Vencido pela miopia, apoiei a maleta e a caderneta em uma mureta que contornava o singelo jardim para pegar o aparato de salvação. Sala 133. Caminhando pelos corredores, uma sensação de que o tempo havia naquele lugar: as portas, os bancos, as salas de aula, as placas de identificação. Tudo parecia ter permanecido intacto ao tempo. Sabemos que o investimento na estrutura da educação pública é muito aquém do que se espera neste país. Após alguns passos, levantei o olhar e vi o número da sala que me esperava. Porta fechada. Toquei a mão na maçaneta, virando-a e abrindo a porta. Sala vazia. Sempre gosto de chegar com antecedência aos meus compromissos.

            Assim que acendi as luzes, avistei as carteiras. Um curta-metragem passou a ser projetado em minhas lembranças. Sim, aquela foi uma das salas onde assistia às aulas enquanto era aluno do primeiro ano. Senti-me nostálgico. A terceira fileira, na terceira carteira do lado direito para o esquerdo da sala. Aquele era meu lugar. Respirei fundo e pisquei meus olhos com força para sair do estado de transe. Dirigi-me à mesa, onde deixei a maleta e comecei a separar meu material para a apresentação.

            Tirei um caderno com as anotações da palestra, uma caneta, uma garrafa vazia e meu estojo com giz. Peguei a garrafa para enchê-la com água. Foi quando olhei para a lousa: uma decepção tomou meu ser. Aquele espaço verde-escuro onde tantos professores fizeram bastões de giz dançar para construir conhecimento com seus alunos fora substituído, sabe se lá Deus quando, por uma dessas lousas digitais. Parece que as mudanças aconteceram só para as lousas!

            Abri o estojo e peguei um bastão de giz, cortei-o ao meio. Arremessei o objeto contra a carteira em que costumava me sentar. Naquele exato momento, olhei para a porta e vi um grupo de três jovens, estupefatos! Fingindo que nada havia acontecido, cumprimentei-os. Depois de certo tempo, passamos a não nos preocupar em esclarecer certas atitudes. Mesmo porque, se assim o fizesse, estaria, como dizem, dando spoiler da minha própria palestra.

            Sala cheia. Comecei pontualmente às 10h. Sempre inicio falando do giz. Certamente, muitos daqueles jovens acharam-me louco ao pegar o giz, sendo que a lousa da sala era digital: “O giz significa o início de minha trajetória. Em uma súplica de chamar a atenção de um estudante absorto, um professor, prevendo a necessidade de me resgatar, lançou o objeto contra a carteira em que me sentava; em seguida, proferiu um discurso do qual jamais me esquecerei e cujo resultado está aqui hoje, conversando com vocês”.   

            Após duas horas e meia de fala, cansado, porém satisfeito, finalizei o encontro. Enquanto a sala se esvaziava, um jovem aproximou-se:

            — Com licença, Prof. Moacir. Acredito que isto lhe pertence.

            O rapaz entregou-me o pedaço de giz que eu deixara no chão, após arremessá-lo. Tirou de sua mochila um livro e continuou:

            — Poderia, por favor, autografar meu livro? Acompanho seu trabalho há algum tempo e estou escrevendo minha dissertação baseando-me nos seus estudos.

            Foi onde tudo começou que eu percebi o quanto aquele giz não havia modificado apenas a minha vida, mas também, indiretamente, a de diversas outras pessoas. Talvez, continue a modificar, até depois de finda a minha existência. 

***

São Paulo sutilmente revelada

Freada brusca de ônibus. Abro meus olhos. Um tímido raio de sol entra pela fresta da cortina do quarto, tocando minha face. Viro-me para o relógio digital que se encontra sobre o criado-mudo. O vermelho dos números perpassa minhas retinas. São cinco horas e quarenta e cinco minutos. Faltam cinco minutos para o alarme tocar, para mais um dia recomeçar na pauliceia ainda desvairada.

Ao abrir a janela do banheiro, avisto entre as torres dos prédios, o horizonte, em seu tom habitual azul-acinzentado; é a mistura do céu paulistano nos dias em que amanhece sem chuvas. Ligando o chuveiro, a água quente. Banho rápido. Perigo de se deixar levar pelo sono, pela sensação de relaxamento e atrasar-se. Hora, minuto e segundo são preciosos quando se vive em uma das maiores capitais do mundo.

Pego a bolsa, as chaves e saio. Aperto o botão do elevador. Tempo de espera que parece uma eternidade. Moradora do último andar de um dos arranha-céus que integra a paisagem da cidade. A porta se abre, vazio. Depois de duas paradas, nos andares de número dez e oito, eu e mais dois vizinhos chegamos ao térreo. Após os “bons dias”, frutos de uma cordialidade necessária, porém nem sempre sincera entre as pessoas, deixo o prédio em direção ao ponto de ônibus.

Caminhada de duas quadras. Durante o trajeto, buzinas e conversas soltas são varridas para dentro dos ouvidos. Sons distorcidos que fazem sentido apenas juntos: memória da rotina de ida ao trabalho dessa imensa cidade. Pessoas apressadas, alguns restos de lixo nas calçadas, um homem deitado com seu cachorro na esquina, debaixo do toldo de uma loja que ainda se encontrava fechada, sobre um pedaço de papelão proveniente de alguma embalagem de eletrodoméstico que alguém deixou no lixo.

Atravesso andando sobre uma faixa de pedestres desbotada para a segunda quadra. No instante em que coloco o pé direito na larga calçada revestida de pedras irregulares pretas e brancas, com cuidado, porque me lembro de que algumas delas estão soltas há anos, adentram pelas minhas narinas, fazendo cócegas, os cheiros do café e do pão na chapa da majestosa e antiga padaria do bairro. O estabelecimento mantém a tradição e a fachada da São Paulo de outrora. Existem, ainda, alguns prédios que resistem à modernidade e exalam a exuberância do início do século XIX. Da miscelânea entre os povos e da mistura entre o ontem, o hoje e o amanhã é que São Paulo é constituída.

Irresistivelmente desvio meu olhar do ponto de ônibus, àquela hora já abarrotado de pessoas, para dentro da “padoca”, mirando o balcão e suas delícias a me seduzir. Pego a agenda e vejo que a primeira reunião do dia acontecerá apenas às dez horas. Atraso de vinte minutos para tomar um pingado e comer um pão na chapa poderia ser perdoado pelo chefe, caso a factível desculpa do trânsito caótico fosse utilizada. Degustando meu café da manhã, sentada em um dos bancos de madeira do balcão, encontro-me acolhida pela combinação aromática do café e dos jornais das pessoas que lá estavam, fusão de cheiros que me faz recordar as manhãs na casa de meus avós paternos, em meus tempos de infância.

Após esse momento nostálgico, dirijo-me ao ponto e vejo o ônibus que preciso tomar chegando. Ergo o braço, sinal para sua parada. Desviando de um buraco, consigo entrar no veículo. Incrivelmente, avisto um lugar ao fundo do meio de transporte. Passo a catraca, pagando a passagem, e rapidamente, sento-me ao lado da janela, ao lado de uma moça que lia um romance. Os passageiros eram, basicamente, pessoas indo ao trabalho e estudantes indo às escolas e faculdades.

Entre o andar e parar do ônibus, assisto pela janela, a tela de  um cinema para os meus olhos, as paisagens de um trajeto diário: a monumental catedral da cidade, situada na praça de seu marco zero; diante de construções antigas, as barracas feitas de lonas azul ou laranja dos camelôs começando a ser montadas com os produtos “Made in China”, um mar de oportunidades que se estende nas calçadas, tanto para quem vende, quanto para quem compra essas peças; ruas de um bairro onde sobrevive a cultura japonesa trazida na época das grandes imigrações, com suas luminárias em vermelho e branco desenhadas em estilo oriental; viadutos e túneis com seus paredões ornados ou por graffiti, ou por pichações, resultados de manifestações político-sociais; alguns poucos monumentos ao longo de uma avenida que leva em seu nome a data da morte de figuras importantes da maior revolução que ocorreu em São Paulo; o verde destoante de seu maior parque, onde residentes e turistas caminham, correm, andam de bicicleta e levam seus animais de estimação para apreciar a liberdade. Por detrás do parque, lindas mansões. Nesse instante, abro a janela, deixo a brisa fresca tocar meu rosto e tenho a sensação de respirar um ar mais leve, filtrado pelas folhas das árvores.

Poucos minutos depois, chego ao prédio do escritório. Pessoas vestidas em trajes sociais, com pastas, andando apressadamente até o elevador e balbuciando um breve “bom dia” aos seguranças e recepcionistas do lugar. Pessoas aglomeram-se, apertando diversos botões de números. Mais um tempo para chegar ao meu destino final. Os vinte minutos de atraso foram previstos acertadamente, assim como a justificativa pela demora. À mesa, ligo o computador, respondo e-mails, atendo o telefone. Uma pausa. A reunião com os diretores. Papéis, apresentações, anotações. Desvio o olhar por algumas vezes para a janela. O frio do ar condicionado ligado e a extensão da fala das pessoas levam-me à distração. Por entre as nuvens, aviões, muitos aviões e pássaros, poucos pássaros. De repente, tudo cinza: uma garoa começa a cair, tocando os vidros da janela. Fim da reunião. Já era passada a hora do almoço. Tempo curto para os afazeres, decido descer ao térreo do prédio onde se encontra uma lanchonete e compro meu almoço para desfrutá-lo em minha mesa, rodeada de papéis. Relatórios, correspondências, telefonemas. A tarde passa em um piscar de olhos.

Fim do expediente. A despedida de um colega que se aposentaria leva-nos a um happy hour. Somos mais um grupo de pessoas sentado em mesas de um dos inúmeros bares da cidade. Conversas, risadas, cigarros, porções de salgados fritos e chopp. Garçons rápidos na cidade que não para, não dorme. Ainda estamos em uma quinta-feira, seria necessário partir para descansar e dormir. Além disso, a cidade não para, mas os transportes públicos têm a sua pausa. Pego o último ônibus para ainda descer a duas quadras do prédio onde moro. O filme da volta, visto pela janela, tem os mesmos atores, porém, pela noite, tudo parece tão solitário e escuro na capital. A iluminação amarelada mistura-se à garoa, dando um tom bucólico, uma pitoresca imagem da cidade que não quer dormir. Onde estão todas as pessoas e carros vistos pela manhã?

Aperto o botão sinalizando a minha descida do ônibus. Aquele momento de beleza da cidade, uma beleza quase muda, mistura-se ao som dos batimentos do meu coração. O “tum-tum-tum” é o resultado do medo de caminhar pelas misteriosas ruas da capital em seu silêncio. Corro as duas quadras, sem olhar para os lados, sem olhar para trás. Ao entrar no prédio, alguém entra, seguidamente. O silêncio emudece o coração. Por um instante o mundo parece parar. Tomo coragem e olho para trás, por sobre meu ombro esquerdo. Um alívio. Um dos vizinhos que desceu pelo elevador comigo pela manhã. Um sincero “boa noite” sai da minha boca como um gesto de agradecimento e felicidade pela sua presença no lugar e não a de um estranho ou ladrão.

Despedindo-me do vizinho do décimo andar, ainda no elevador, olho para o relógio. Faltam dez minutos para a meia-noite. Chego ao meu lar e vou direto para a cozinha, beber um copo com água. Olho pela janela. As luzes da cidade estão quase que completamente apagadas. O céu, sem estrelas, passa a cobrir as construções com uma neblina esbranquiçada, como um cobertor quando nos envolve, nos aquece. A tentativa da natureza de fazer adormecer a cidade mais agitada do país.