A ROTATÓRIA

Márcia Lupia

Márcia Lupia

Durante nossas vidas, passamos por diversas ruas: algumas largas, outras estreitas; as asfaltadas, as esburacadas, as de paralelepípedo e até mesmo as de terra; aquelas que são ornadas por árvores e as enfeitadas por vitrines de lojas; há aquelas pelas quais passamos uma única vez em toda a nossa existência, mas também aquelas pelas quais passamos todos os dias e sequer notamos. Foi uma dessas ruas que passou a me chamar a atenção.

Ela é uma rua de pequena extensão, situada em São Paulo e dividida em dois quarteirões residenciais. Em seu meio, encontra-se uma rotatória que tem por demarcação, em todo seu entorno, tachões de sinalizações feitos de cimento e pintados na cor branca.

Lembro-me da manhã fria de inverno que me fez notar algo dentro daquele espaço. Eram quatro caixas de madeira, todas pintadas, daquelas utilizadas pelos feirantes. Foram três semanas de transformações diárias. As caixas coloridas ganharam flores. A circunferência da rotatória passou a ser preenchida por diversos vasos: eram girassóis, lírios, antúrios, violetas, suculentas. Um espetáculo de cores!

A metamorfose da rotatória deu ares de “jardim de casa de vó” ao local. Quem seria o responsável por aquela obra? Era um presente pitoresco no meu trajeto. Aquele lugar havia se tornado muito significativo para mim.

A verdade sobre todo esse acontecimento veio em um dia em que a rotina ficou de lado e passei pela rotatória mais tarde que o costumeiro. Ao entrar pelo caminho que me levava diariamente ao jardim circular, notei uma movimentação nunca antes vista: uma senhora, cabelos brancos, em torno de 75 anos, trajando um vestido rodado e florido, um casaco de lã marrom, meias e sapatos pretos. Ela estava segurando um regador em sua mão direita, regando as margaridas, enquanto sua mão esquerda acariciava as flores. Sua boca mexia-se, parecia que falava ou cantava para as flores. Dei mais de uma volta na rotatória, parei o carro e desci. Aproximei-me do jardim. O perfume das flores penetrava pelas minhas narinas. Era uma carícia à alma no meio da fumaça da cidade grande. Virei-me para a senhora e soltei um amigável bom-dia.

– Bom dia, garota! Não me lembro de você. Como se chama?

– Meu nome é Alice.

­­­– Alice, que nome bonito! Eu me chamo Eva. Este é o meu jardim. Cuido dele há anos.

O fato de Eva dizer que cuidava do jardim há anos deixou-me confusa, já que fazia apenas semanas do seu aparecimento. Talvez tivesse ouvido errado.

– Seu jardim me chamou a atenção. Tenho que ir para o trabalho, mas gostaria de saber como cuida das flores. Posso voltar outro dia?

– Claro! – concordou Eva com um sorriso.

Entrei no carro com planos de voltar logo que pudesse. Algo me atraía àquela situação. Era o jardim que me trazia lembranças da infância na casa de minha avó. Era o vazio das minhas manhãs que se tornaram cheias de vida com as cores da rotatória. Era a falta de tempo para apreciar as pequenas coisas da vida. Era um pouco de tudo.

Assim que o sábado chegou, dirigi-me à rua da rotatória. Estacionei em um local próximo. Nenhum movimento no jardim. Esperei por meia hora. Durante a espera, percebi que as poucas pessoas que passavam a pé naquele lugar ficavam deslumbradas com a beleza, paravam, contemplavam e tiravam fotos. Dona Eva havia tocado meu coração e o de outras pessoas.

Desisti de esperar, mas voltei ao lugar, no mesmo horário, dia seguinte, um domingo. Ao despontar na rua, avistei Dona Eva. A mesma cena da primeira vez: regando, acariciando e conversando com as flores. Entrei no jardim:

– Bom dia, Dona Eva!

– Bom dia, garota! Não me lembro de você. Como se chama?

– Sou eu, Alice, Dona Eva. Nos conhecemos há alguns dias. Fiquei de voltar ao seu jardim para ver como cuida das flores.

– Alice, que nome bonito! Venha, vou lhe mostrar como devem ser regados os girassóis. Como o clima aqui em Tomar é muito seco, os girassóis devem ser regados diariamente pela manhã.

Prestei a atenção em todas as explicações daquela sábia senhora, mas fiquei intrigada com o nome do lugar que ela havia citado.  Tomar é uma cidade do distrito de Santarém, em Portugal. Será que ela teria confundido? Após uma hora de cuidados com todo o jardim circular, uma mulher apareceu. Era sua filha. Simpática, cumprimentou-me e eu expliquei que admirava aquele lugar há semanas. Contei que estava aprendendo a cuidar das flores e combinei que deixaria em uma das minhas passagens matutinas dois vasos para o jardim, assim poderia voltar no domingo seguinte para cuidar deles e aprender mais. Despedi-me das duas e descobri que moravam na rua, em uma casa em frente à rotatória.

Na terça-feira subsequente, logo pela manhã, parei o carro próximo à rotatória e deixei dois vasos de orquídeas. A semana passou rapidamente e, assim que chegou o domingo, dirigi-me à rua da rotatória no horário em que as flores costumavam receber os cuidados. Aproximei-me do jardim e ninguém estava por lá. Esperei por uns vinte minutos. Nada. Reparei que os vasos das orquídeas que havia deixado lá estavam do mesmo jeito. Passei a olhar cuidadosamente para outros vasos e notei que alguns pareciam estar descuidados. Caminhei para o portão da casa em que eu vi Dona Eva entrar com sua filha há uma semana. Janelas e portas fechadas. Toquei a campainha. Nada. Toquei novamente. Esperei uns dez minutos. Nenhuma movimentação. Parti, pensativa…

A semana foi passando e os dias tornando o jardim menos vívido. Sentia-me incomodada, sem coragem de procurar saber o que estava acontecendo. Evidentemente que, ao final da semana, a dúvida já era maior que o medo. Sábado de manhã fui até o jardim e reguei os vasos. Algumas flores já estavam mortas. Acabei, fui até o carro. Sentei-me no banco do veículo e já ia partir. Parei, respirei fundo, saí do carro e fui em direção ao portão da casa de Dona Eva. Toquei a campainha. Minhas mãos suavam. Ouvi o trinco da porta da sala: era sua filha. Ela havia me reconhecido:

– Bom dia! Veio conversar com minha mãe?

– Bom dia! Sim, gostaria de saber como ela está. Combinamos de nos ver domingo passado, mas ela não estava aqui. Não pude deixar de notar que o jardim não estava tão bonito esses dias. Resolvi tocar a campainha para saber o que aconteceu.

– Minha mãe está melhor agora. Ela caiu enquanto cuidava de seu jardim. Está com a perna direita engessada. Meu irmão a levou para o interior. Sou sozinha e trabalho o dia inteiro. Não consigo cuidar dela. Aliás, com o Alzheimer piorando, melhor deixá-la em um ambiente com mais pessoas e no qual ela possa se recordar de sua terra natal, lugar de onde ela trouxe o amor pelas plantas e flores.

– Entendo. Fico feliz em saber que ela está se recuperando. Uma curiosidade: a terra natal de sua mãe é Tomar, em Portugal?

– Sim. Como sabe?

– Enquanto ela me ensinava a cuidar dos girassóis, ela me disse que eles deveriam ser molhados com mais frequência porque “aqui em Tomar o clima  seco pedia maiores cuidados”.

– Começamos a notar que ela estava sofrendo com Alzheimer quando ela passou a falar como se estivesse em Tomar. Falava sobre o jardim que cuidava com sua avó, em sua infância. Tentamos fazer um aqui em minha casa, mas sem espaço, ela resolveu fazê-lo na rotatória. Com a ajuda de vizinhos, eu conseguia trabalhar em paz e saber que ela estava bem em sua florida criação. Mas, infelizmente, ela caiu…

Ouvindo essas últimas palavras, despedi-me da mulher. Acabei não deixando lembranças para aquela senhora que havia mudado as minhas manhãs. Ela não se lembraria de mim.

Os dias, as semanas e os meses transcorreram e a rotatória foi perdendo sua cor, seu encanto. O jardim morreu. Apenas o asfalto, os vasos com terra seca e os restos da memória passaram a habitar o interior dos tachões de cimento pintados na cor branca.

***

A GOTA

Vestia-se para ir ao trabalho. Deixava a camisa passada em um cabide na maçaneta da porta do quarto no dia anterior. Traje social era exigência do escritório de publicidade “Pictures”. Vítor, recém-formado em jornalismo, trabalhava lá há seis meses e não poderia desapontar sua chefe, a renomada jornalista Ísis Bonaparte. Ele tinha o emprego que muitos de seus colegas almejavam. Entretanto, a cada dia, sentia-se mais desmotivado: ser assistente de Ísis era secretariá-la pessoal e profissionalmente. Ademais, Ísis trabalhava na área de moda e Vítor sonhava com jornalismo investigativo.

Mais uma manhã em que caminhava pensativo em direção à estação do metrô. Eram poucas estações até sua parada na Avenida Paulista, local onde trabalhava. Como de costume, parou na “Cafeteria Estrelas” para comprar um copo de 500 ml de café descafeinado com mirtilo para Ísis. Era sua primeira tarefa do dia. O copo era entregue a ela assim que se viam: no hall do edifício, no elevador, ou na sala dela. Além desse favor pessoal, Vítor tinha que sair no horário do almoço para pagar as contas de Ísis, ou comprar-lhe uma marmita com comida vegetariana. Café entregue a Ísis no hall do edifício, o rapaz, a pedido de sua chefe, subiu diretamente para a sala dela, pois precisava pegar um envelope que ela esquecera sobre sua mesa. Ela disse que havia marcado uma reunião externa com um cliente e teria de levar a proposta que se encontrava no tal envelope. Aborrecido por ter de fazer tarefas tão esdrúxulas, desceu, entregou-o e voltou à sua rotina.

Aquela manhã transcorria normalmente, pacata, um céu cinza e uma garoa intermitente. Na hora do almoço, barulhos de sirenes ecoaram pelas salas dos escritórios da avenida, despertando a curiosidade de muitos, que desceram para ver do que se tratava. Vítor era curioso, mas a preguiça daquela manhã acabou vencendo e ele permaneceu em sua mesa. Depois de alguns minutos, Nina, uma de suas colegas, contou o acontecido: um assassinato! O defunto era o ator Carlo Bianco. Foi um tiro com uma pistola semiautomática com silenciador (Nina costumava sair com um dos guardas metropolitanos que trabalhava nos arredores da Avenida Paulista, que lhe deu os detalhes). O carro do galã de tantas novelas estava parado em uma das travessas da avenida e só notaram que havia um homem morto dentro do veículo quando as pessoas começaram a sair para almoçar. Depois de relatar o acontecido, Nina deixou a sala de Vítor. O rapaz permaneceu inerte por alguns minutos. Devaneava. Crimes e mistérios sempre o fascinaram. Foi interrompido pelo seu ramal: era Ísis solicitando-lhe que fosse buscar sua marmita. De volta à realidade!

A vontade de ver o que acontecia foi maior que a de cumprir sua tarefa. Desviou a rota. A rua em que estavam o carro e o morto ficava a apenas três quadras dali. Andando a passos largos, logo chegou ao local: estava isolado, sem o cadáver e com a equipe da perícia. Não conseguiu se aproximar. Eram muitas pessoas aglomeradas para bisbilhotar. Desistiu. Resolveu voltar e buscar a comida. Durante o resto da semana, os noticiários apresentaram exaustivamente a morte do ator. Vítor acompanhava as novidades acerca do caso atentamente. Dez dias após o crime, divulgaram a única pista que poderia levar ao assassino: uma gota de café no banco do passageiro. O rapaz, que adorava investigações, pensou que aquela pista seria insuficiente, até quando noticiaram que o café era descafeinado e de mirtilo. Vítor desfaleceu na frente da tela do computador. A boca seca, as mãos trêmulas. Seria possível? Ísis era a única pessoa que ele conhecia que tomava aquele tipo de café e havia saído naquela manhã para um trabalho externo. Passou o dia em sua sala, remoendo o que sabia e torcendo para Ísis não lhe pedir nada. Voltando para casa, sentiu que não viveria com aquilo. Mudou sua trajetória, foi à delegacia que investigava o caso e contou tudo ao delegado, pedindo sigilo, já que sua vida também se encontrava em risco. Graças à astúcia e à coragem de Vítor é que os policiais conseguiram desvendar o mistério: Ísis era amante de Carlo e o chantageava há muito tempo. Enfurecida com a decisão do ator de contar à imprensa sobre a traição e as chantagens, a jornalista resolveu matá-lo.

Vítor deixou o emprego e passou a procurar por outro na área do jornalismo investigativo. Infelizmente, jamais utilizou o acontecido para enriquecer seu currículo, ou obter privilégio nas entrevistas, já que, mesmo presa, Ísis era influente e poderia torná-lo a próxima vítima.

******

O curta-metragem da vida

Abriu os olhos. As vistas desembaçavam, trazendo o infinito branco do teto misturado a uma luz que nunca se apagava. Virou a cabeça para o lado direito e deparou-se com três fios pendurados e uma cortina verde-clara. Ao virar o pescoço para o lado oposto, a mesma cortina e um fino tubo de plástico transparente. Um barulho contínuo, como se uma goteira pingasse constantemente um som agudo. Situação de um mês.

Voltando sua cabeça para a posição inicial, alinhada à sua coluna, pôde notar que seu corpo estava coberto. Seus pés, porém, desvencilharam-se do abrigo e despontavam, não como realmente eram, longos, magros e fracos, mas como um dia foram, pequenos, fortes e cheios de caminhos a serem percorridos…

Era sempre assim: cobrindo-o,  sua mãe o colocava para dormir com um beijo na testa. Assim que ela apagava a luz e fechava a porta do quarto, Pedro descobria seus pés e, deitado em sua cama, chamava seu irmão Paulo para que brincassem de contar histórias. As narrativas eram sempre sobre o mar, a praia e todo seu mistério.

Nascidos e criados no interior, sabiam tudo sobre a terra, os animais e as plantações. Pedro jamais se esqueceria da tarde em que ele e seu irmão, já adolescentes, voltavam da plantação de café e seu pai deu-lhes a notícia de que a família passaria uma semana na praia. Trabalhadores rurais muito esforçados, levavam a vida com simplicidade e, para ver a felicidade de seus filhos, o patriarca fez grande esforço para juntar economias.

Que momentos mágicos foram vividos naquela semana! Pedro sentia, com o aparecimento dessa lembrança, a sensação da água do mar tocando seus pés pela primeira vez: impressão de que o mar o puxava para dentro de sua imensidão. A brisa, o cheiro, as ondas, a areia. Era muito melhor que qualquer uma de suas histórias.

Pedro e Paulo eram inseparáveis. Brincavam, contavam histórias, frequentavam aulas e trabalhavam juntos. A infância e a adolescência de ambos foram marcadas por esse amor fraterno. Ah, o amor! Uma de suas múltiplas facetas causou o término dessa parceria.

A pedido de seu pai, Paulo passou a sair para vender seus produtos a clientes em uma cidade vizinha. Nessas viagens, ele acabou conhecendo Iara e logo casaram-se. A moça não quis deixar a cidade de sua família e a relação estreita entre os irmãos passou a ser um abismo de saudades. O vazio deixado por Paulo passou a ser preenchido por copos de cachaça. A ingestão desmedida de bebida alcóolica trouxe consequências que levaram Pedro a ficar diversas vezes internado em hospitais. Esse vício foi responsável por acelerar a morte de sua mãe, que adoeceu vivendo toda aquela situação com o filho. Quanta tristeza! Lágrimas rolavam lentamente de seus olhos. Pedro passou a enxergar o teto embaçado.

Após a morte de sua mãe, ele e seu pai decidiram trabalhar nas indústrias da capital. Um recomeço. Trabalharam em uma tecelagem e por lá ficaram uns bons anos. O dinheiro que ganharam era suficiente para pagar as despesas e ainda conseguiram economizar para a realização de um sonho: abrir um pequeno armazém de secos e molhados.

Durante os anos de trabalho na indústria, tanto Pedro quanto seu pai conheceram duas moças e começaram relacionamentos que acabaram em matrimônio. Após o casamento, Pedro conseguiu iniciar um novo capítulo em sua vida. Maria fazia seu coração bater fortemente. Ela ainda lhe deu seu maior presente: sua filha Ana. Ah, quanta alegria com seu nascimento! Ao lembrar daquele instante, uma agitação tomou conta do corpo de Pedro e fez com que o barulho do pingar das gotas agudas acontecesse mais rapidamente.

Pedro e Maria casaram-se, mas demoraram para ter um bebê. O casal chegou a procurar médicos, a reforçar suas preces perante Jesus Cristo e os santos protetores da família e da fertilidade, de nada adiantou. Foi um período muito triste no casamento deles. Eis que Pedro teve a ideia de levar Maria para conhecer o mar. Decisão acertada! Logo em seguida, ela engravidou.

Pedro era um pai exemplar. Trabalhou duro para criar sua filha. Os anos mais felizes foram durante sua infância: vê-la caminhar, falar, correr ao seu encontro assim que chegava do trabalho, pedir para que lhe contasse uma história antes de dormir, ajudá-la com o dever da escola, brincar. Ela o fez sentir o amor mais puro e verdadeiro. O ápice desse sentimento foi um momento de dor. Assim que o episódio desencadeador dessa dor emergiu das profundezas das lembranças, Pedro sentiu dificuldade em respirar. Bateu suas mãos contra a cama, em um gesto de desespero. Engasgou. Bateu as mãos contra a cama. A cortina se abriu, uma sombra parou em frente ao leito, sumiu e voltou rapidamente com um tubo de plástico transparente que foi colocado nas narinas de Pedro. Somado ao barulho agudo das gotas, um barulho de vazamento de gás. Pedro voltou a respirar. Seus pensamentos se reorganizaram.

Em uma tarde de inverno, Ana, então com seus nove anos de idade, voltava para casa. Percebendo que começaria a chover, a menina passou a correr para chegar depressa ao seu destino. Ao atravessar a rua, sem olhar para os lados, um carro acertou-a em cheio. Pedro, ao ser avisado por um cliente do armazém sobre o acontecido, correu ao local, com suas pernas trêmulas. Fechou os olhos nesse instante e apertou-os para tentar resgatar o que aconteceu do momento em que viu Ana desacordada no chão ao dia em que chegou em casa e viu a garota em pé, brincando no jardim com o seu cachorrinho. Não conseguiu.

A partir dessa lembrança, Pedro passou a ter apenas flashes de alguns momentos. Um vazio turvava as imagens e passava a transformá-las em um escuro profundo. Lembrou-se de Ana moça, chegando em casa com seu avental sujo de giz; a seguir, de Maria bordando enxovais… vazio, o escuro, o choro de uma criança. Apertava os olhos fechados para tentar visualizar a criança. Sem sucesso. Apertou-os com mais força e veio à sua cabeça a imagem de Maria ao seu lado na sala, em seguida ela chorava perto de um homem de branco e virando-se, olhou para Pedro, enxugando as lágrimas e segurando suas mãos. Novamente um lapso de memória, um vazio profundo. Um barulho de sirene, forte e intermitente, muitas pessoas a seu redor e ele via-se deitado. Abriu os olhos, o teto não estava mais branco. A imagem estava turva, passando a acinzentar-se. Escuro. Olhos fechados. O barulho agudo já não era mais como uma gota caindo. Passou a ser um barulho constante.

*****

Rua Roma, 44

O táxi parou em frente a um dos sobrados da Rua Roma, em São Paulo. Do veículo, desceram motorista e passageiro. O viajante era Edgard, homem de seus quarenta e poucos anos, cabelos lisos e pretos, poucos fios esbranquiçados. Trocou poucas palavras com o condutor do transporte que o trouxera do extremo oposto da cidade, da casa que fora obrigado a deixar por não ter condições de bancar o aluguel. Durante todo o trajeto, lembrou-se dos bons momentos que havia passado com sua ex-mulher naquele lugar onde por mais de dez anos chamou de lar.

As mudanças econômicas no país com a adoção de um novo plano e moeda tiveram efeito oposto ao esperado por alguns empreendedores, como aconteceu com Edgard. Além de perder muito dinheiro, na mesma época, foi enganado pela esposa, que se aventurou em uma história de amor com o seu sócio. Sozinho, em uma casa que lhe trazia tantas lembranças e cujas despesas só faziam aumentar, nosso protagonista resolveu procurar outro lugar para morar.

Em um anúncio de jornal, acabou encontrando seu novo lar na Rua Roma, 44. Bem situada, a casa construída nos anos sessenta era, mesmo após tantos anos, um imponente sobrado coberto por tinta amarela, com janelas e portas de madeira bem conservadas, ainda as mesmas da época de sua construção, tingidas por um branco sujo, graças à poluição dos veículos que circulavam pela via.

Era isso. Saindo do transe que lhe consumiu por alguns segundos, tempo necessário para que um curta-metragem de sua vida passasse em sua cabeça, pagou o prestativo chofer que o ajudou com suas três malas, deixando-lhe uma gorjeta. Em seguida, enfiou a mão direita no bolso frontal de seu jeans desbotado e puxou um molho com algumas chaves. Após duas tentativas, conseguiu abrir a porta de entrada. Acendeu a luz da sala e passou os olhos por todo o ambiente: uma sala com uma estante e uma televisão; sofá, mesa de canto para um telefone. Dois quadros, um de frente ao outro, paredes opostas. Em um deles havia um barco em um lago, com uma montanha ao fundo, cujo cume era ornado por uma casa pintada de vermelho; no outro, uma plantação de cevada e um casal correndo entre as plantas douradas. Próxima à escada de madeira, uma cadeira de balanço com assento trançado de palha.

A casa havia sido alugada por um preço abaixo do praticado no mercado e já continha móveis. Edgard achou uma grande oportunidade, já que não tinha muito dinheiro para pagar nada caro e nem verba para mobiliar uma casa: sua mulher havia se divorciado e levado quase tudo da casa em que moravam.

Cansado, subiu as malas até o quarto e resolveu deitar-se na cama. Esta havia sido uma das únicas peças de mobília que trouxera de sua antiga casa. Jogou-se no colchão e soltou um suspiro de alívio por ter encontrado um abrigo em meio a tantas tormentas. Fechou os olhos e adormeceu por um bom tempo. Conseguiu até sonhar: sonhou que estava correndo de um bandido e ao sentir um toque em suas costas pulou da cama, acordando abruptamente. Olhou para os lados, por entre a fresta da porta do quarto que dava para a escada, e nada viu. Voltou a adormecer. Dormiu até a manhã do dia seguinte.

A claridade dos primeiros raios de sol avançara a fresta das cortinas empoeiradas. Edgard acordou e dirigiu-se ao banheiro para tomar seu banho. Azulejos cor-de-rosa até a metade da parede e pisos da mesma cor. Arrastou a cortininha de plástico branco e ligou o chuveiro. Despiu-se e entrou embaixo da água quente, que parecia jorrar de uma pequena cachoeira.  Relaxante…. Até que um forte barulho interrompeu o banho: era um barulho de madeira batendo contra alguma superfície e parecia vir da sala.

Terminou o banho, pegou uma de suas roupas, ainda amontoadas na mala. Desceu as escadas. Olhou rapidamente a sala e nada viu. Na cozinha, nada avistou. Voltando à sala, para ligar a televisão e ouvir o noticiário, como gostava de fazer pela manhã, notou algo diferente: os quadros. A pintura em que se avistavam um barco em um lago estava diferente: no lugar do lago e do barco havia um gramado e cavalos. A outra tela com o casal correndo entre a plantação de cevada estava somente com a plantação, sem o casal. Pensou ser muito estranho, mas considerou que por estar extremamente cansado na noite anterior, poderia ter misturado real e imaginário.

Era uma segunda-feira. Edgard olhou seu relógio de pulso e notou que já era hora de dirigir-se ao trabalho. Após a perda de sua empresa, ele passou a trabalhar em uma metalúrgica. Desceu as escadas, girou a chave que estava no buraco da fechadura pelo lado interno da casa, tirou-a do buraco e olhou para a sala novamente: a cadeira de balanço não estava no local em que havia visto na noite anterior, ela estava mais próxima à parede da escada. Achou estranho, mas, com receio de se atrasar para o trabalho, deixou de lado.

No trabalho, Edgard tinha poucos amigos, com os quais comentou sobre sua mudança e sobre o acontecido com as imagens dos quadros. Um deles ainda tirou aquele sarro que se tira entre amigos “Poxa, Edgard, você andou bebendo mais que o usual?”. Na volta do trabalho, passou em um mercado e comprou algumas coisas para poder cozinhar uma boa janta. Ele gostava de cozinhar. Desceu do ônibus, andou por uma quadra e lá estava a casa amarela. Abriu a porta, acendeu as luzes da sala. Passou diretamente para a cozinha, guardou suas compras. Empolgado, lavou as mãos e colocou-se a picar os ingredientes para fazer uma bela carne de panela. Enquanto trabalhava, ouviu um ruído de televisão ligada. Passou a tentar se lembrar se havia ligado a TV quando chegou, mas tinha quase certeza que não. Quem poderia ter sido? Foi até a sala, o aparelho ligado, tudo parecia normal. Até que bateu os olhos nos dois quadros e viu o impossível: o casal da tela da plantação de cevada estava no quadro onde estavam os cavalos e os cavalos estavam no meio da plantação de cevada. Furioso, arrancou os dois quadros da parede. Chacoalhava-os e nada parecia acontecer. Pendurou-os. Começou a achar que estava ficando louco.

Ao voltar à cozinha, passou os olhos na cadeira de balanço. Ela estava novamente em outro lugar. Como? Edgard, intrigado, voltou aos afazeres na cozinha, tentando ignorar todos aqueles acontecimentos. Enquanto comia, pensava…. Talvez estivesse com algum problema psicológico, vendo alucinações. Resolveu que assim que sobrasse algum dinheiro, iria se consultar com um psicólogo. Lavou a louça, pegou um copo com água, preparando-se para ir ao seu quarto e dormir. Apagou as luzes da cozinha, entrou na sala, decidido a não olhar para os quadros e assim o fez; desligou a televisão e decidiu deixar a luz da sala acesa. Começou a subir a escada. Ao alcançar o meio de sua extensão, ouviu um rangido. Olhou para a cadeira de balanço que estava a balançar, sem ninguém. Arrepiou-se por inteiro. Seu corpo começou a ficar mole, o copo caiu de sua mão, estilhaçando nos degraus de madeira. As vistas turvaram-se e ele desmaiou. Seu corpo rolou degraus abaixo e parou na ponta da escada, sofrendo alguns cortes com o vidro do copo que se estilhaçara.

Edgard ficou a noite inteira no chão, acordando somente na manhã do dia seguinte, com o sol que penetrava pela cortina da sala. Ao abrir os olhos, como um flash, a cena da cadeira de balanço a movimentar-se sozinha veio à sua mente. Sem olhar para os lados, subiu as escadas correndo e trancou-se no quarto. Tomou um banho, tentou esfriar a cabeça. Vestiu-se para ir ao trabalho. Estava com receio de descer as escadas, mas não poderia se atrasar. Juntou o resto de coragem que ainda lhe sobrava e correu para a porta da sala, sem olhar para a cadeira ou para os quadros. Foi trabalhar e resolveu que não falaria nada do ocorrido para ninguém.

Naquela noite, voltou mais tarde para casa e, exausto, optou por subir sem passar pela cozinha e muito menos pela sala. Dormiu um sono profundo, sem barulho, sem sustos. Os dias após os incidentes dos quadros, da televisão e da cadeira passaram, sem intercorrências.  

Edgard já estava habituado à casa. Começou a arrumá-la de seu jeito. Trocou os quadros, doou a cadeira de balanço, comprou um tapete, entre outras pequenas mudanças que o fizeram se sentir em um verdadeiro lar. Começou a notar uma umidade crescente na parede que havia debaixo da escada. Naquelas três semanas em que estava lá, a umidade crescera e ele resolveu contratar Jorge, um pedreiro conhecido de sua família, para quebrar o espaço e ver se algum cano de água estava vazando.

Combinou o serviço para um sábado, a fim de acompanhá-lo. Edgard cobriu os móveis e com ajuda de Jorge, estendeu uma lona no chão para não estragá-lo. O pedreiro começou a marretar a parede por volta das 10 horas da manhã. Estava achando estranho, um concreto que parecia novo, não era tão velho quanto a casa. Por volta das 11 horas, Jorge, estupefato, viu alguns pedaços de carne em decomposição e ossos caírem junto com um pedaço de concreto. Pareciam partes de um corpo. O homem, imediatamente, gritou para Edgard ir até o local. Os dois decidiram que iriam marretar até encontrar o que quer que fosse. Foram encontrando mais restos em estágio de decomposição avançada de um corpo humano. Entre ossos e partes de corpo, podia-se notar que o defunto não foi uma pessoa de grande estatura. Quebraram praticamente todo o concreto debaixo da escada. Além das partes do corpo, um revólver calibre 38. Presumiram que se tratava de algum crime. Chamaram a polícia.

Os dois homens prestaram todos os esclarecimentos aos policiais, que levaram os pedaços do corpo e o revólver para investigação. Após o ocorrido, Edgard resolveu mudar-se da casa da Rua Roma. Os noticiários mostraram o caso e, depois de um tempo que o assunto estava adormecido, teve seu desfecho: o corpo era da antiga moradora da casa da Rua Roma, 44. Ela morava com um homem, que foi preso após a investigação. Parece que o assassinato da Rua Roma teve por motivação uma caixa de joias, herança de família, pertencente à senhora assassinada.

Edgard, depois de saber de todo o caso, entendeu que não teve alucinações. Aqueles estranhos e perturbadores acontecimentos que o fizeram pensar que estava louco, nada mais eram que avisos da pobre senhora morta.

***

Sertão: das tragédias à salvação

            No solo infértil do sertão da Bahia, lugar fecundo para as tragédias e mazelas humanas, nasceu uma fraterna amizade entre dois homens que foram unidos pela desgraça em suas vidas. De um lado temos nosso protagonista, Luís Carlos, nascido em 1831, na cidade de Senhor do Bomfim, Bahia, fruto de um relacionamento abusivo entre sua mãe, Ana, mulher escravizada que trabalhava em engenho de cana-de-açúcar e do senhor da fazenda em que viveram até a Abolição da Escravatura. Do outro, nascido em Nova Vila de Campo Maior, no Ceará, em 1830, Antônio Vicente, homem que ao decorrer de sua história de vida passou a ser conhecido como Antônio Conselheiro.

            As vidas desses dois homens cruzaram-se em uma tarde do ano de 1892. Após a morte de sua mãe, Luís acabou sendo forçado a deixar a fazenda daquele que biologicamente podemos chamar de pai. O velho senhor tinha apreço por sua mãe, mas não por ele. Luís passou a perambular pelas cidades em busca de algum trabalho que ao menos lhe proporcionasse condições de sustento. Entretanto, as condições eram extremamente desfavoráveis. A grave seca de 1878 castigara severamente os sertanejos, diminuindo o plantio e a necessidade de mão-de-obra. Somada à escassez de oportunidades de trabalho, a enorme quantidade de negros à procura de uma ocupação após a liberdade adquirida em 1888 atrapalhava a busca de Luís. Fazia algo aqui, acolá. Algumas vezes trabalhava em troca de comida; outras vezes dependia da caridade daqueles que pouco tinham, mas que repartiam esse pouco.

            O sol escaldante e a falta de comida no estômago começaram a enfraquecer seu corpo. Luís sentia a sua língua grudar no céu da boca, consequência da falta de água. Eram quilômetros e mais quilômetros de uma paisagem mórbida: um cemitério de animais a céu aberto, rodeado por vastos sítios com plantações secas e queimadas.  Restos. Solidão. Tristeza.

             Caminhando com muita dificuldade, já sem esperança, o homem avistou um pequeno vilarejo próximo a Bedengó. Sentia-se tão cansado que a pequena distância que o separava dos casebres de madeira tornara-se infinita. Assim que chegou à entrada daquele lugar, sentou-se em uma pedra, lá permanecendo por alguns minutos. Durante esse tempo de descanso, Luís notou que o local parecia uma cidade fantasma. Seus olhos percorreram as paredes de madeira até que pousaram fixamente em uma porta do que parecia um bar. Ele tomou coragem e levantou-se, dirigindo-se ao estabelecimento. Ao passar pela porta, avistou meia dúzia de mesas empoeiradas nas laterais do local e um balcão de madeira pintada ao fundo. Atrás do balcão havia uma estante com algumas garrafas de bebidas já pela metade.

            No canto do balcão avistou uma moringa de barro. Sem pensar, pegou a moringa e virou a água de uma vez em sua boca. Enquanto matava sua sede, por detrás da estante surgiu um homem alto, segurando um pano em suas mãos. O homem, dono do estabelecimento, enfureceu-se de pronto e foi em direção a Luís, com o punho em riste. O pobre e sedento homem estava em transe com aquele momento de satisfação, sentindo a água hidratar sua boca, seu estômago. Acabou nem percebendo quando um soco veio em direção ao seu rosto, fazendo-o cair no chão, juntamente com a moringa que se despedaçou.

            Ao tentar levantar-se do chão para se explicar, escorregou no resto da água da moringa e o furioso homem continuou dando-lhe socos e pontapés. Luís, como estava bem debilitado devido à falta de alimentação e ao cansaço de andar pelo sol escaldante, tentava defender-se, sem sucesso.  Foi aí que começou a sentir algo quente escorrendo em seu rosto e indo em direção de sua boca. Era sangue. Aquele gosto de sangue quente trouxe-lhe à memória o sofrimento que vinha passando desde o seu nascimento, na condição de escravizado, o que piorou muito com a morte de sua mãe. Foi aí que se entregou: não reagiu, não proferiu um único som ou palavra. O pobre homem chegou à conclusão que seria melhor o fim.

            Foi nesse momento que Antônio Conselheiro entrou pela porta do bar. Ele foi em direção aos dois e ordenou:

            – Pare José! Vai matar esse homem!

            – “É um ladrão”, disse José.

            – “Não sou ladrão! Estava apenas precisando de água. Passei dois dias sem água”, respondeu Luís.

            Conselheiro era um homem sábio, pregava as palavras de Deus e coisas boas aos sertanejos. Deixou a vida onde morava com sua família por vergonha e humilhação que sua adúltera mulher o fizera passar. Era professor, foi ambulante e tentou outros bicos para sua sobrevivência. Saiu do sertão do Ceará, sem rumo, e foi parar no sertão da Bahia. Era articulado e o poder da palavra o ajudou a arrastar muitas pessoas consigo. Seguidores fiéis. Além das palavras, sua aparência física, senhor barbudo, magro, cabelos longos e grisalhos sempre apoiando seus passos em um cajado, conferiam aos seus ensinamentos credibilidade.

            – “Lembre-se de nossa conversa sobre o bem e o mal. Lembre-se de que perante as leis divinas todos somos pecadores e que se Ele nos perdoa, podemos perdoar nossos irmãos”, admoestou Conselheiro.

            E como num passe de mágica, José ajudou Luís a se levantar, colocou-o sentado em uma cadeira e desculpou-se. Disse que pegaria mais água ao homem e que iria lhe arrumar algo para forrar o estômago. Conselheiro sentou-se ao lado de Luís e passaram a conversar sobre suas vidas. Ele puxou um pano de sua bolsa e entregou a Luís para que pudesse limpar o sangue. Enquanto conversavam, Luís comia e se deixava levar pela satisfação de poder comer e de ouvir Conselheiro. Há tempos não conversava com uma pessoa que transmitia tanta segurança em suas palavras e que lhe despertara um sentimento de esperança. Depois de duas horas de prosa, Conselheiro fez um convite que selaria essa amizade e mudaria a vida dos dois para sempre:

            – Eu e meus homens encontramos um lugar abandonado em Canudos, onde poderemos recomeçar: plantar e criar de forma comunitária. Não dependeremos de ninguém a não ser de nós mesmos para o sustento. Faremos da meditação algo diário. Quer se juntar a nós? Seria uma honra.

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Aiello Calabro: as raízes

 Desde pequena ouvia as histórias de sua avó paterna sobre suas origens italianas. Eram tardes inteiras regadas a biscoitos, doces, chás e muita, mas muita conversa. Cada narração tinha uma ilustração que lhe conferia veracidade, algum objeto de memória da família: um livro, uma fotografia em preto e branco, uma caneta, um isqueiro, um lenço, uma chave, um cartão e até mesmo um relógio de parede de madeira com pêndulos dourados.

Antonella, nascida e criada por uma pequena família de descendentes de italianos em um dos bairros mais italianos de São Paulo, sentia fascínio pelas suas raízes. Guardava com atenção quaisquer informações que pudessem levá-la ao ponto exato onde tudo começara. Ao longo dos anos, até sua fase adulta, ela tentava encaixar as peças do quebra-cabeça do que considerava sua história. Guardava, com muito carinho, todos os adereços pertencentes aos seus ancestrais. Somaram-se às “velharias” as informações advindas da internet e das redes sociais. Por meio do contato com italianos da região da Calábria, evidentemente com seu mesmo sobrenome, a jovem brasileira com sangue de italianos, acabou descobrindo o nome de um lugar que iria mudar todas as suas perspectivas de vida: Aiello Calabro; é uma comune situada em Consenza, na Calábria, no mapa, no peito do pé da bota. Oras, como seria esse lugar? Por que seus ancestrais saíram de lá? Essas foram muitas das perguntas que tiraram o seu sossego e levaram-na a agilizar sua viagem à Itália.

Antonella começou a trabalhar ainda muito jovem e, com o tempo, havia feito economias pensando em explorar cada cantinho daquela terra que tanto a atraía. Resolveu aventurar-se, sozinha. Comprou as passagens com destino à Lamezia Terme, um dos locais mais próximos de Aiello Calabro. Desembarcou no aeroporto internacional que leva o nome da cidade, em uma agradável tarde de primavera europeia. Em um carro alugado, já no meio da estrada rumo a Aiello Calabro, Antonella sentia um misto de alegria e medo. Será que ela se sentiria em casa no local onde se encontravam suas raízes?

Aiello Calabro é uma aldeia situada entre montanhas e um belo bosque; já em sua entrada, percebe-se que a localidade respira a história com o seu castelo que remonta a época bizantina. As vielas de pedras e suas casas de no máximo dois andares são um convite ao passado. As flores e a iluminação dão um ar romântico ao local.

Com o pôr-do-sol, Antonella chegou ao casebre alugado onde se hospedaria, na Corso Luigi de Seta. Sentia-se exausta. Após retirar sua bagagem do carro e se instalar, decidiu ir a algum mercado e comprar algo para comer. Seria mais simples, já que estava anoitecendo e ela não havia feito planos para o dia de sua chegada; além disso, descansar talvez fosse o melhor a se fazer, assim poderia guardar suas energias para o dia seguinte.

Depois de caminhar por alguns metros, avistou uma pequena porta com alguns pães e queijos expostos em uma vitrine. Decidiu atravessar a rua e comprar algo lá mesmo. Sua primeira impressão dos italianos não foi muito boa: o senhor que era dono do estabelecimento não demonstrou presteza em seu atendimento e, assim que a jovem pisou os pés porta adentro, o homem de bigode e cabelos brancos começou a baixar as portas pedindo para que ela se apressasse, pois eles estavam fechando o mercado. Acabou pegando água, queijo, pão e um vinho. Deixou o estabelecimento com uma certa tristeza pela falta do sentimento de acolhida em seu primeiro contato com um local.

Ao chegar a seu sítio de hospedagem, lugar rústico, porém com seu charme, Antonella tomou um banho. Em seguida, encheu uma taça de vinho, cortou o pão e o queijo e, enquanto se alimentava, rabiscava seu roteiro, alterando suas andanças. Decidiu que seus dias começariam mais cedo e terminariam mais cedo por conta dos costumes locais. Em suas observações feitas na rua e pela janela de seu refúgio, a garota percebeu que a maioria da população local já era mais velha e que ela deveria se adaptar aos horários.

O dia seguinte amanheceu lindíssimo: céu azul e sol vibrante. Antonella arrumou sua mochila com seu roteiro, sua câmera fotográfica e sua garrafa com água. Decidiu caminhar pelo centro da cidade, o qual conserva seus traços medievais e elementos renascentistas e barrocos, uma mistura exuberante que chamou muita a atenção da jovem. Por volta do meio-dia, almoçou em um pequeno restaurante no centro, cujos donos atenderam-na muito bem e contaram a ela que uma parte de sua família havia deixado a Itália e ido morar no Sul do Brasil. Ela, por sua vez, sondou sobre a possibilidade de algum parente de seus ancestrais estar vivo, mas não conseguiu nenhuma informação importante. O gentil casal ofereceu-lhe turdilli, um doce típico da região durante as festividades de fim de ano. Mesmo estando em meados da primavera, a mulher dizia fazer o doce durante o ano todo, já que sua neta era fascinada pela iguaria.

Seguindo seu roteiro, Antonella resolveu visitar o castelo de Aiello Calabro, ou o que restou dessa importante fortaleza após tantos terremotos que a região sofrera ao longo dos séculos. Após essa visita que a deslumbrou, sua próxima parada seria em um lugar muito especial: Chiesa di Sancta Maria Maggiore. Esta foi a igreja em que seu trisavô fora batizado. Ela havia deixado para o final da tarde, pois queria acompanhar a celebração da missa.

Ao chegar no local, uma emoção descomunal tomou conta de si. Os olhos encheram-se de lágrimas ao percorrer os caminhos por dentro da igreja e chegar ao lugar onde se encontra a pia batismal. A jovem se perguntava como podia se sentir tão ligada a uma pessoa que não está mais entre nós após tantas gerações. Em meio a perguntas e sensações, os minutos se passaram e a missa começou. A igreja não estava cheia. A maioria das pessoas que acompanhava a missa era de idade superior a cinquenta anos.

 Em sua direção, na mesma fileira de bancos, mas do outro lado do corredor principal, uma senhora, por volta de seus setenta anos, baixa, trajando uma saia preta, uma blusa acinzentada e um lenço roxo envolvendo suas costas, passou a olhar para Antonella até que ela notasse a sua presença. A garota continuou assistindo a missa, mas intrigada com aquela senhora. Ao final do ato litúrgico, a senhora caminhou até Antonella e sentou-se ao seu lado. Olhando fixamente em seus olhos, disse-lhe:

– Seus traços me são tão familiares. Quem é você?

Antonella achou muito estranha a aproximação daquela mulher, mas não hesitou em contar-lhe um pouco de sua história, quem era e o porquê de sua viagem a Aiello Calabro. Logo que terminou sua narração, a jovem viu aqueles cansados olhos azuis cheios de lágrimas. Sem entender nada, esperou que ela se explicasse. Naquele momento, algo mágico, algo que jamais, em momento algum daqueles anos todos de planos, ela poderia imaginar: aquela senhora era sua parenta, distante, claro, mas era. De repente, uma euforia tomou conta de si e ela ria e chorava ao mesmo tempo e nenhuma palavra nem em italiano, nem em português conseguia pronunciar.

Após alguns instantes desse sentimento maluco, Antonella começou a interrogar a senhora. Catterina era uma prima de segundo grau de seu trisavô. Por ser a filha mais nova de uma família de dez filhos, a diferença de idade entre eles era grande, tanto que em todas as histórias, recortes e rastros que a ajudaram a montar o quebra-cabeça de sua origem, ela jamais imaginaria uma prima viva de sei lá quantos graus dela. Isso não importava. O importante é que elas tinham o mesmo sobrenome, as mesmas raízes. Saíram da igreja e foram até a casa de Catterina. Lá, tomaram sopa, comeram pão e conversaram por algumas horas. Na parede da sala de sua prima, Antonella fixou seu olhar em um relógio feito de madeira, com pêndulos dourados e números em algarismos romanos. Uma viagem pelo tempo, através das memórias, através do momento.

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A caderneta verde

Um começo de manhã tipicamente acinzentado em São Paulo. Marta encontrava-se em um ponto de ônibus de uma das grandes avenidas da cidade, entretida com uma revista de palavras-cruzadas. Após vinte minutos de espera, o ônibus chegou. Sentou-se ao fundo, próxima à janela. Gostava de se distrair vendo as pessoas nas ruas.

Ao olhar para o par de bancos ao lado, também vazios, avistou algo que parecia ser uma agenda verde. Como não havia ninguém por perto, presumiu que algum passageiro tivesse esquecido. Marta levantou-se do banco em que estava sentada e trocou de assento, pegando o objeto esquecido em suas mãos. Viu que se tratava de uma caderneta. Pensou em abri-la para ver se existia o contato do dono. A página inicial estava em branco. Sem dados. Folheando a caderneta viu que existiam muitas anotações e, em algumas páginas, alguns recortes de revistas e jornais.

Nas primeiras páginas existiam tabelas: as primeiras eram relacionadas às de compras de objetos de jardinagem, de cozinha e alguns produtos químicos, com preços e endereços. As páginas subsequentes pareciam transcrições de falas de alguma pessoa em reuniões, entrevistas. As passagens transcritas não eram atribuídas a alguma pessoa. Entretanto, alguns nomes de empresários, políticos, entidades e indústrias apareciam nos recortes.

Olhou pela janela e viu que já estava próxima do ponto em que desceria. Pensou em deixar a caderneta no banco, como havia encontrado. Deixou. Levantou-se e puxou a corda do ônibus para que o motorista parasse na próxima parada. Mirou a caderneta. Virou-se para a porta. Sensação estranha. Passou a desejar aquela caderneta. O ônibus parou. Assim que o barulho da porta do ônibus se abrindo entrou em seus ouvidos, virou-se rapidamente, pegou a caderneta e saiu do veículo.

Na calçada, guardou o objeto em sua bolsa. Caminhou rapidamente ao escritório. Precisava continuar a leitura daquelas anotações. Passou por seus colegas e sentou-se em sua mesa. Finalmente. Estava ela e a caderneta. Pareciam informações desconexas. Por que estariam lá? Quem seria o dono da caderneta? Como devolvê-la? Essas eram as perguntas que ficaram assombrando Marta. Até que apareceu o primeiro recorte de revista: nele, uma foto com dois homens. Um deles era o prefeito da cidade; o outro, era Miguel Feitosa, o maior empresário do estado. Mais dez recortes e Miguel em todos eles com diferentes pessoas.

As peças do quebra-cabeças estavam se encaixando. Era um plano. Tudo muito nebuloso, até que veio a página com a data de 20 de novembro em destaque, exatamente um mês daquele dia. Junto da data, um itinerário, uma grande quantia em dinheiro, alguns nomes, denominações de armas. Seria um assalto ao empresário!

Marta precisava agir. Pensou em falar com Miguel Feitosa. Desistiu. Como provaria que aquelas informações encontradas eram verdadeiras? Decidiu que falaria com a polícia. Teve medo. A caderneta não tinha nome. Os policiais iam querer investigá-la. Não poderia se calar. E agora? Foi pegar um chá bem quente na copa do escritório para pensar em uma solução…

Era isso! Marta deixaria a caderneta na porta de uma delegacia. No fim do expediente, andou cerca de quatro quarteirões, chegando à porta da delegacia, com a caderneta, deixando-a cair no chão, discretamente.

Foram dias de dúvida acerca de seu plano. Caso a caderneta não caísse nas mãos dos policiais, certamente, Miguel Feitosa sofreria um grande assalto e Marta sabia que o homem corria risco de morte. O medo de um mal-entendido lançou à sorte a fortuna e a vida daquele homem. No dia 20 de novembro, Marta não conseguiu ir trabalhar. Estava tão ansiosa que passou muito mal. Em sua cama, TV ligada, ela olhava para o teto e ouvia a programação. No meio da tarde, alívio: a polícia havia feito uma emboscada para prender a quadrilha que assaltaria e mataria Miguel Feitosa. O delegado, com a caderneta na mão, dava detalhes de como aquele objeto ajudara a ação de sua equipe